Essa semana o texto é um vídeo, estreando o nosso canal do youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=dDTH8eHEmMA
Confere lá.
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Lá e de volta outra vez.
Estava passeando pelas
comunidades de swordplay do facebook quando me deparei com uma postagem assaz
intrigante.
Dúvida: como eu faço pra voltar para um grupo que eu fui expulso a 10
mil anos atrás?
Num primeiro momento achei que se
tratava de algum tipo de brincadeira ou zoeira, já que ela tinha sido postada na
Liga Nacional de Swordplay (Freepost), um lugar conhecido pela quantidade
absurda de abobrinhas relacionadas ao swordplay. Mas depois, lendo a postagem
em questão, percebi que se tratava de um assunto muito sério.
A primeira pergunta que se pode
fazer diante de uma postagem dessas é “o que diabos você fez para merecer uma
expulsão?”, em primeiro lugar. Consultei alguns amigos de outros grupos que
foram categóricos em afirmar que a expulsão é uma punição reservada para
infrações muito graves. Graves mesmo. “Não temos uma quantidade muito grande de
membros” firmou um colega de São Paulo “Por isso fazemos o possível para
contornar as situações adversas que aparecem nos treinos. Muitas vezes uma boa
conversa e alguns dias de molho resolvem o problema. Expulsão apenas em último
caso”.
Entretanto nem todos os grupos são
assim. Em alguns casos as expulsões são arbitrárias. Existem “diferenças
criativas irreconciliáveis” entre a liderança do clã e a pessoa que foi
expulsa. Em algumas situações tem a ver com implicância ou com o jeito de ser
da pessoa que foi expulsa. Enquanto pesquisava para este artigo esbarrei com
uma pessoa que foi expulsa porque estava namorando com a ex-namorada do líder
do grupo.
Nestes casos existe pouco o que
pode ser feito. De forma pragmática existem dois caminhos possíveis. O primeiro
deles é esperar a poeira assentar e depois de algum tempo buscar a redenção.
Essa é a opção de agir como pessoas maduras e conversar com as lideranças se
desculpando, dizendo como mudou e prometendo que não voltará a cometer os
mesmos erros.
Outro caminho, igualmente
pragmático é seguir em frente. Pode ser que você considere que sua expulsão foi
injusta e que não vale à pena voltar para o grupo antigo. Simplesmente busque
abrigo em outro grupo. Se não houver um grupo disponível você ainda tem a opção
de fazer o seu mesmo. A internet está cheia de bons textos e vídeos sobre como você
pode começar.
Mas existem casos em que a
expulsão não pode ser reversível. Estes raríssimos casos não são um simples problema
de comportamento, ou atitude. Existem casos em que o que está em jogo é o caráter
e, por conseguinte, a segurança dos envolvidos. Pessoas que falam mal de seus
grupos, semeiam a desunião e jogam membro contra membro devem sim ser expulsos.
Pessoas assim são tóxicas e nocivas e não importa para que grupo se desloquem,
continuarão a trazer experiências ruins pata todos à sua volta.
No fim tudo uma expulsão é sempre
um pouco traumática. Para o bem ou para o mal é uma mudança sólida e muitas
vezes necessária.
sábado, 16 de setembro de 2017
Dicas rápidas de um bom treino
Para quem não sabe, estou coordenando dos treinos dos Lordes
de Ferro, na cidade do gama – DF. Todo domingo, a não ser por força maior. Por
conta disso tenho estudado muito sobre como gerir um grupo e sobre como
conduzir atividades físicas – essa segunda parte está sendo bem complicada.
O objetivo do curtíssimo texto de hoje é trazer algumas
dicas (seis no total) para quem está começando a treinar swordplay.
1. Não exagere.
Para começar, quem não tem o costume de se
movimentar precisa ter em mente a necessidade de dar os primeiros passos e
seguir aos poucos, sem exagerar.
2. Não desista no primeiro obstáculo.
Após o início das primeiras atividades, é
importante não desistir. É preciso manter-se ativo, focado, firme e forte nos
exercícios e movimentos até que eles façam parte da sua rotina.
3. Não desanime com a falta de tempo.
Depois que o treino começar a fazer parte
da sua rotina de exercícios, é importante não desanimar, nem deixar o trabalho,
a universidade, os filhos ou outra ocupação atrapalhar seu movimento. Precisa
de um bom estímulo? É simples. Chame um amigo para praticar junto!
4. Não desanime pela falta de resultados
rápidos.
Quer outro bom motivo para não deixar de
praticar swordplay? Pense nos benefícios que o esporte e as atividades físicas
trazem para sua saúde. Pode ser que você não esteja lutando tão bem quanto gostaria,
mas é só uma questão de tempo.
5. Pratique de cor (e salteado)
Ainda precisa de mais um argumento? Então,
lembre-se do coração. Ele precisa de movimento para ficar forte e levar você vida
à fora. Você não quer perder o ônibus só porque não conseguiu dar um pique até
a parada, não é mesmo?
6. A ciência para se sentir melhor
Está mais que comprovada a importância do
movimento para o aumento da autoestima das pessoas. Com a autoestima lá em
cima, os benefícios virão em diversos momentos: o estresse diminui e o trabalho
fica melhor. Vai ser mais fácil até pra cumprir as metas do dia a dia.
Apesar de tudo, é preciso ter em mente que
isso nada disso vai fazer sentido se não for feito com prazer. Se você não
gosta do swordplay (ou de qualquer outro esporte) não force. Procure outra
modalidade em que você se divirta. O importante é curtir o tempo que você tem
disponível e não ficar se torturando por conta dele. Agora, se você gosta de
swordplay, o que você está esperando? Um convite para fazer parte da távola
redonda?
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Pedra que rola não cria limo
Mudanças...
Mudar não é fácil. Sair da nossa
zona de conforto, do caminho que estamos acostumados, da situação que sabemos
lidar são verdadeiros desafios que persistem na humanidade desde tempos
imemoriais. Extensa literatura pode ser encontrada para ajudar a compreender
como a mudança, que é, ironicamente, uma das únicas constantes da vida, pode
ser abraçada.
E nesses dias eu tomei uma dose
extra de coragem para fazer algumas mudanças. Para que não sabe, eu fazia parte
do reino de Eldhestar, antigamente conhecido como Reino dos Cavaleiros da
Virtude e ainda antes disso conhecido como Lobos do Sul, sediado na Região
Administrativa de Santa Maria, no condomínio Santos Dumont, em Brasília. Este
grupo em especial já chegou a sediar treinos com mais de 50 participantes.
Durante muito tempo ele manteve-se bastante ativo, mas de uns tempos para cá
foi se esvaziando. Coisas como preparação para vestibular, emprego, faculdade e
demais responsabilidades da vida foram afastando seus membros mais atuantes até
que não havia quem pudesse ministrar os treinos, guardar o arsenal e se
responsabilizar pela coisa toda. Não apenas isso, mas muitos membros “despilharam”
de jogar swordplay. Nada mais natural. As pessoas pilham e despilham o tempo
todo.
Então eu me vi preso com um grupo
de pessoas que não queriam mais jogar ou que não tinham mais tempo para jogar.
O que é que eu poderia fazer? A opção era montar um novo grupo, em outra Região
Administrativa do Distrito Federal e começar tudo de novo, ou ficar se
lamentando porque não tinha mais treinos. Abracei a primeira opção. Começar do
zero. Sem nome, sem fama, sem arsenal, sem símbolo, sem nada.
Conversei com pessoas
interessadas em montar um grupo na Região Administrativa do Gama. Descolamos um
bom local, perto da rodoviária da cidade e começamos os treinos aos domingos.
O primeiro treino teve pouco mais
de quatro pessoas. Foi um risco assumido fazer um treino em pleno domingo dia
dos pais. Mas no final de semana seguinte o número aumentou. Estamos no nosso
4º treino, com uma média de 13-15 pessoas por treino e 29 pessoas no nosso
grupo do facebook.
O grupo em si me surpreendeu
desde o nosso terceiro encontro. A ideia original é que o grupo fosse uma das
bases da Aliança de Beufort, mas o grupo decidiu que no momento não queria
fazer parte de nenhuma agremiação existente. “Não vou ‘bend the knee’ para um
rei que não conheço” disse um dos meninos, fã de GoT. “Podemos dar conta de nós
mesmos, professor. Se cada um fizer sua parte, podemos dar certo”, disse outra
menina. Então foi o que fizemos. Estamos sós, stand alones e adorando cada
momento.
Em votação aberta no face
escolhemos o nosso símbolo. Um corvo. O nome? Ainda não temos. Vai ser
escolhido até o final do feriadão. Por enquanto somos os Lordes de Ferro, reino
autônomo. Foi decidido também pelo grupo que não vamos seguir um sistema de
cores de batas. Ou seja, qualquer membro pode criar a sua Bata com o sistema de
cores que achar melhor. Pode fazer uma toda preta ou uma toda branca, pode
misturar as cores, pode homenagear o seu time favorito, ou a sua escola de
samba campeã do carnaval. É com o jogador. Pode fazer mais de uma, inclusive. O
que vai nos separar do resto do mundo é o símbolo que vamos usar no peito: o
nosso corvo.
Outra coisa que ficou decidido é
que se o jogador quiser fazer um brasão pessoal, está liberado. O jogador pode
usar o brasão pessoal no lado esquerdo do peito, numa versão menor, ou nas
costas com uma versão bem maior.
Por enquanto é isso. Treinamos
todos os domingos, a partir das 14:30-15:00 horas, ao lado do Galpãozinho do
Gama, do lado da biblioteca pública da cidade, em frente a galeria do Super
Frota, perto da Rodoviária da cidade.
OBS: neste feriadão de 07 de
setembro não teremos treino. Vamos ao festival medieval de Brasília.
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
Espadas, espadas, espadas...
Qual a melhor espada para você?
Quando você começa a treinar swordplay muitas coisas vem na sua cabeça. E provavelmente uma das perguntas mais comuns é justamente qual é a melhor espada para ser usada. Eu garanto a você que esta pergunta já gerou dezenas e centenas de milhares de flame wars na internet. Todo mundo que luta ou que treina algum tipo de esgrima tem a sua espada favorita. Isso seja lá por que motivo for. Tem gente que se agarra a motivos históricos, tem gente que se agarra a ideia de vídeos que viu em algum lugar da internet, tem gente que conclama que a espada de determinado anime ou seriado é melhor que a de outra... Enfim não é mesmo sobre isso que eu quero discutir.
Se você olhar com atenção o título deste texto vai perceber que eu coloquei uma particularidade na pergunta. Eu perguntei "para você". Mas quando eu fiz isso eu não estava tratando apenas de uma questão de opinião. A pergunta que eu faço atravessa o subjetivismo com uma certa clareza e pergunta de maneira distinta qual é a espada mais indicada para você. Sim, você que está lendo isso.
A melhor maneira de responder esta pergunta é através do empirismo. Ou seja você, caro leitor, é quem deve experimentar todas as espadas que você puder e assim escolher o estilo de luta que mais lhe agrada. O meu conselho, neste caso, é que você vá com o espírito aberto e "desarmado". Se você já for para experimentar as espadas pensando que esta ou aquela já é, automaticamente melhor, e que você está apenas confirmando isso, você está fazendo errado. É um péssimo começo. Vá experimentar sem medo de se descobrir fã desta espada ou daquele estilo em detrimento de outro. Não existe nada de errado em mudar de ideia. "Só não muda de ideia quem não tem ideia".
Eu mesmo comecei swordplay achando que a espada japonesa era o que havia de mais avançado quando assunto era esgrima. Pode parar de rir, você aí que está fazendo tranças no cabelo, usando uma bata azul com o que parece ser um corvo estampado no meio do peito. Eu vim direto do kenjutsu para o swordplay. Nada mais natural que eu achasse mesmo que a espada Samurai fosse melhor que todas as outras. Com o passar do tempo me identifiquei mais com a esgrima alemã e depois disso passei a usar o escudo. Hoje eu sei que não existem espadas melhores ou piores do que outras, especialmente quando vamos jogar boffer swordplay. Existe apenas uma questão muito pessoal de gosto. Mas a espada que mais se adequa a mim, as minhas necessidades, é a espada longa de uma mão e meia, usada em conjunto com escudo.
Mas eu só cheguei a esta conclusão quando eu passei a ser honesto comigo mesmo e quando eu passei a querer realmente encontrar a espada que melhor se adequasse ao meu estilo de luta. Se eu continuasse preso aos antigos estereótipos que eu tinha provavelmente eu seria um infeliz espadachim usando uma katana e uma wakizashi.
Então o meu conselho para você e vai em frente e experimente o máximo de espadas que você puder. Descubra aquela que melhor serve aos seus propósitos e objetivos dentro do jogo. E não tenha medo de mudar de arma ou categoria apenas porque você já tem um certo nível na sua arma ou categoria antiga. O importante neste caso é que você se divirta.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Orgulho
O leitor Daniel Aureliano sugeriu como tema "quando o orgulho atrapalha do desenvolvimento da pratica". Segue abaixo Daniel. Obrigado pela dica.
De acordo com pesquisa da
universidade de Oxford na década de oitenta, o português figurava entre os 10
idiomas mais difíceis de aprender em todo o mundo. Nova pesquisa realizada no
começo dos anos 2000 deixou o português de fora. Não figurava mais nem no top
10. Eu achei um grande equivoco. O português é uma das línguas mais difíceis de
aprender. Mas não é por sua gramática – que é complicada, sem dúvida, mas nada
fora do comum – mas por suas pequenas exceções e particularidades. Pegue a
palavra “manga”, por exemplo. Ela pode se referir a manga da camisa, pode se
referir à fruta, pode se referir ao verbo mangar (rir de alguém, fazer troça,
zoar) e ainda pode ser associado ao quadrinho japonês (mangá). Como é que uma íngua
dessas não é complicada, meu deus?
Mas é no swordplay que a língua portuguesa
lança alguns de seus mais interessantes dilemas semânticos. Uma palavra que
usamos o tempo todo, mas que pode ser ao mesmo tempo a fortaleza ou a ruina de um
jogador ou grupo. Falo da palavra “orgulho”.
Existem duas formas dialéticas de
se compreender o Orgulho. Uma delas diz respeito ao “sentimento de prazer, de
grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra”; a outra versa
exatamente sobre “sentimento egoísta,
admiração pelo próprio mérito, excesso de amor-próprio; arrogância, soberba”. Assim,
o termo pode ser empregado tanto como sinônimo de soberba e arrogância, quanto
para indicar dignidade ou brio de alguém ou de alguma coisa.
Filosoficamente não se pode
classificar o orgulho como uma virtude, uma vez que ele não é uma ação voluntária
e sim um sentimento. A grande questão é que, como sentimento, muitas pessoas
não aprenderam a controlar seus sentimentos e usá-los a seu favor.
Em um primeiro vislumbre não
existe nada de errado em se orgulhar de alguma coisa. Você fez uma espada
bonita e que todo mundo elogia; o seu grupo é conhecido por luar bem e ser
honesto e honrado no campo de batalha; seus colegas são famosos por falarem a
verdade. Não, não existe nada de errado em se orgulhar de coisas assim. O
problema é quando orgulho vem em excesso. O orgulho em excesso pode se
transformar em vaidade, ostentação, e soberba. Isso tudo pode levar o indivíduo
(ou o grupo, em alguns casos) ao chamado egoísmo, sendo visto como uma emoção
negativa. Uma nova evolução pode realmente acontecer: a passagem do Orgulho
para a Arrogância, se ela não o for constantemente patrulhada com nossa Sabedoria.
Neste caso em que se estabelece
uma relação entre orgulho e arrogância, ela se torna um tipo de satisfação
incondicional. Quando os próprios valores do grupo ou do indivíduo são
superestimados levam as pessoas a acreditarem ser melhores ou mais importantes
do que os outros. E esse é um sentimento desagregador, que causa cisão entre os
membros de um grupo.
Nunca é demais lembrar-se de que
nenhum de nós é melhor que todos nós juntos. O fato de eu ter uma espada ou um
escudo melhor do que você, não me faz melhor. O fato de eu lutar bem não
significa nada além disso, e só deveria ser motivo de satisfação até um limite
onde eu posso empolgar os outros ou ensiná-los a serem tão bons como eu.
O trabalho de combater o orgulho
no esporte deve vir de todos os lados. Devemos ser vigilantes não apenas com o
comportamento do outro, mas com o nosso mesmo a fim de evitarmos que ele deixe
de ser um sentimento positivo de auto realização e se torne algo destrutivo.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Honra!
O leitor e cartomante Giovanni
Borghi de Vasconcellos pediu (ou previu) que eu escrevesse (ou escreveria) um
texto sobre a relação honra-honestidade x trapaça-ma fé. Eis o resultado
abaixo.
Eu me recordo de muitas lições
importantes que eu aprendi enquanto treinava kenjutsu no Instituto Niten, em
Brasília, sob a atenta supervisão do Senpai Ricardo Lopes. E uma dessas lições
ajudou a moldar o meu caráter de forma indelével.
Era uma tarde de outono e
estávamos treinando no clube militar do SMU de Brasília. Era uma quadra poli
esportiva muito bonita, mas razoavelmente mal cuidada. No final daquela tarde
houve alguns shiais (lutas simples) entre os membros mais graduados. Um
espetáculo de técnica, estratégia e habilidade. Um desses shiais, já feito em
completa penumbra, revelou a luta entre dois senpais muito graduados. Foi lindo
e no final um deles – acredito eu que o menos graduado – sagrou-se vencedor.
Quando foi anunciada a sua vitória ele mal podia acreditar e permitiu-se uma
tímida comemoração. Nada mais que um simples puxão de punho em direção ao peito
(o famoso yes!).
Eis que o Senpai Ricardo
imediatamente alterou o resultado da luta, dando a vitória para o outro
lutador. A explicação foi lacônica: “na vitória ou na derrota as virtudes do
bushidô devem prevalecer sobre nossos sentimentos”.
E o que foi que o lutador fez de
tão errado? Ao comemorar a vitória ele esqueceu-se de três virtudes do caminho
do guerreiro: o Rei (Respeito), o Makoto (Honestidade) e o Meiyo (Honra). Sim,
tudo isso com um simples yes!
Foi neste dia que eu aprendi esta
valiosa lição que agora compartilho com vocês. Seguir o caminho do guerreiro é
dar ênfase à lealdade, fidelidade, coragem, justiça, educação, humildade,
compaixão, honra e acima de tudo, viver e morrer com dignidade. Ou seja, ser
honrado significa ser o juiz de si mesmo. As escolhas que você faz e como você
trabalha para obtê-las são um reflexo de quem você realmente é. Você pode se
esconder dos outros e até mentir para eles, mas você não pode se esconder de si
mesmo.
E no boffer swordplay poucas
coisas são tão valiosas quanto o tripé das virtudes Honra-Honestidade-
Humildade (que são, não por acaso, o lema não escrito da Aliança de Beufort). Sabe
por quê? Porque, diferentemente de outros esportes de contato, no boffer
swordplay, eu preciso confiar na palavra do outro. Enquanto que em outros
esportes a catimba, a trapaça, e a mentira são valorizados (gol de mão é mais
gostoso...), no swordplay a honestidade, a verdade e a honra é que são
valorados. Melhor perder honestamente do que vencer trapaceando.
E justamente essa é ao mesmo
tempo a maior fortaleza e maior fraqueza do swordplay: como eu preciso
acreditar na palavra do outro, eu só vou saber que ele está mentindo em
situações muito óbvias. Mesmo. Dessas que não se pode mesmo esconder. Uma pessoa
que queira trapacear ou agir de má fé tem diante de si um terreno amplo e
fértil. Afinal de contas, quantas vezes já não no deparamos com pessoas que não
aceitam golpes que recebem (os famosos higlanders) ou que são direcionadores de
golpes (os não tão famosos drivers)? Só para esclarecer um highlander jamais é
atingido, mas um driver é um cara que quando é atingido perto do ombro diz que
você o atingiu no pescoço ou em outra área proibida.
E como resolver essa questão? Não
é uma coisa simples. Como um bom “advogado do diabo” eu sempre procuro ver
todos os lados de uma questão. Pode ser que a pessoa não tenha sentido o golpe
mesmo, ou pode ser que ela ainda não tenha entendido que viver e morrer de
forma honrosa seja mais importante do que vencer no swordplay. Pode ser que ela
ache mesmo que ninguém está vendo, ou que ela ache que assim como ela usa o
“jeitinho” brasileiro para se safar de outras situações, pode fazer o mesmo com
o swordplay.
De qualquer forma é uma situação
espinhosa. Eu sempre comparo isso a dizer para alguém que o seu desodorante
venceu ou que ele está com mau hálito... Nunca é uma tarefa fácil.
O que eu posso garantir que
funciona à longo prazo é a educação contínua de seus colegas de treino e de você
mesmo. É relembrar, de tempos em tempos, que essas práticas não são permitidas,
desejadas ou mesmo incentivadas. Que é “feio e errado” trapacear no jogo. Não
respeitar as regras é um ato essencialmente egoísta: em busca de uma falsa
satisfação de que se é o melhor, você estraga a diversão de todo mundo à sua
volta. Sério... Não dá para ter respeito por gente que age dessa maneira.
Em casos rotineiros uma boa
conversa e alguma supervisão personalizada costumam resolver. Em casos mais
graves uma bronca, e quando a pessoa não aprende mesmo, a suspensão dos treinos
e até expulsão. Ou se aprende por bem, ou se aprende por mal.
“E como é que se faz quando o
problema está acontecendo num evento? No EPS desse ano eu vi um grupo que não
morria nem que dessem um tiro de 38 na cara deles.” Disse a líder de clã com
uma bata fashion cor de vinho com
borda dourada. Daí eu não sei. Eu tentaria conversar com o líder do clã em
questão e se não desse resultado eu falaria com o pessoal do evento. Se mesmo
assim não funcionasse eu tentaria evitar esse pessoal em campo de batalha. Neste
caso o ostracismo parece ser um remédio amargo mas eficaz.
“Mas e se eu quiser bater de volta
no cara, com mais força, para curar o higlanderismo dele na base da porrada?”
pergunta o rapaz barbudo, meio clone de Ragnar, com óculos escuros e bata vermelha
e amarela. Você pode, claro. Mas eu não aconselho. Aliás eu enfatizo que você não
deve fazer disso. Não se cura o mal com o mal.
Então, era isso. Até a próxima.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
sexta-feira, 21 de julho de 2017
Swordplay nos jogos Interclasse CEM 02 - 2017
Eu sou uma pessoa acostumada a escrever e a falar em
público. Para você que já é meu leitor não deve ser nenhuma surpresa saber que
eu sou professor da rede pública de ensino. Eu tenho uma certa fama na escola e entre meus
amigos por sempre ter o que dizer. Por nunca ficar sem palavras ou argumentos
sobre qualquer assunto.
Mas o que eu vivi nos últimos três dias, dentro do meu
ambiente de trabalho favorito (a escola), reunindo um dos meus hobbies
favoritos (o swordplay) me deixou sem palavras. Esta não é a primeira versão
deste texto, mas é com certeza a versão que mais me agradou até agora.
Vou recorrer a um velho truque dos escritores, que é fazer
uma recapitulação dos fatos, para ver se o texto flui. Então, vamos voltar até
o ano passado quando eu introduzi a modalidade de swordplay nos jogos
interclasse na minha escola. Foi um sucesso moderado, mas como tudo que acontece
pela primeira vez foi bagunçado e meio descontrolado. Com os erros de 2016 eu
tentei preparar cuidadosamente os jogos de 2017. Mas nada do que eu fiz me
preparou para a sucessão de eventos que eu narro a seguir.
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| Isso aqui não deu nem para o cheiro |
Combinei com os alunos e com a direção da escola que
faríamos uma “oficina” de swordplay, onde eu ensinaria os alunos a forjarem as
armas que eles usariam nos jogos daquele ano. Dessa forma cada aluno deveria
trazer um cano PVC de ¾, duas tampinhas de garrafa pet e um espaguete de
piscina para que, juntos, fizéssemos as espadas que eles usariam no torneio do
dia seguinte. Na véspera da oficina fui até a loja Kalunga para comprar os
materiais da oficina.
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| Todo mundo aprendendo os rudimentos da espada |
Com o auxílio da professora de artes (querida Telma)
começamos a oficina de construção na sala do laboratório de redação. Iniciamos
os trabalhos com dois rolos e meio de fita Silver Tape (num total aproximado de
125m), três quartos de fita Silver Tape preta (35m), dois rolos de fita
isolante, três quartos de lata de cola de contato, 10 isolantes térmicos de
sete oitavos, estiletes novos... E não conseguimos terminar fazer e de cobrir todas
as espadas.
No dia seguinte comprar o restante do material extra para
cobrir as espadas. Tivemos que mudar o cronograma dos jogos. No planejamento
original a quarta feira estava marcada para fazer as espadas e para dar
treinamento básico para os alunos. Não deu. Usamos parte da quinta feira para
terminar as espadas, dar treinamento básico e fazer duas das três modalidades
propostas para os jogos.
Ainda na quinta fiz um rápido concurso para ver quem forjou
a melhor espada. Três alunos foram escolhidos os melhores forjadores: Lailla
Emilly (2ºJ), Fellipe Araujo Lima (3ºO) e Anna Eliza (3ºK).
Não tem como deixar de agradecer a todos os alunos que
fizeram destes primeiros dias de gincana um exercício maravilhoso de trabalho e
criatividade. Vocês, que nunca tinham forjado uma única espada na vida, me
ensinaram muito mais sobre forja e criatividade do que eu jamais pude aprender
com outras pessoas.
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| Os forjadores e suas armas prontas |
Na quinta feira fizemos as duas primeiras modalidades. O
famoso “X1” e o já tradicional “Jogos Vorazes” na escola. Foi um fim de tarde
muito divertido e muitas vezes esqueci que estava coordenando uma competição.
Os alunos jogavam com coragem, raça e honestidade, de tal forma que fariam
inveja a muitos veteranos catimbeiros que existem dando sopa por aí.
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| X1 foi intenso |
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| Os tributos se preparando para os jogos vorazes |
No X1 destacaram-se os alunos de Djonatan Washington (2ºK),
com o primeiro lugar; Luann Oliva (2ºQ) com o segundo lugar, e Kevin
"Madonna" (3º M) que levou um honroso terceiro lugar.
Já na modalidade Jogos Vorazes tivemos uma espécie de
repeteco com outros que já haviam ganhado antes: desta vez o Fellipe Araújo
Lima ficou em primeiro, seguido pela Lailla Emilly e com o Kevin de novo em
terceiro lugar. Os melhores colocados do
ano passado foram ficando pelo caminho.
O ponto alto do “terceiro” dia de eventos para swordplay foi
a disputa entre equipes de quatro pessoas para o pega-bandeira. Usamos uma
variação das regras de pega-bandeira à moda de Eldhestar para deixar as coisas
mais dinâmicas. 5 equipes foram inscritas: Azul 1, Azul 2, Vermelho, Verde e Preto (ok,
concordo que precisamos melhorar o nome das equipes). O resultado do pega
bandeira do swordplay acaba de sair. A equipe Azul 2 terminou empatada em
primeiro lugar com a equipe Verde conseguiu um total de 100 pontos. A equipe Preta
empatou em segundo lugar com a equipe Azul 1 e a equipe Vermelha não conseguiu
nenhuma vitória.
Esse foi sem dúvida o dia mais divertido porque os alunos
aprenderam o real sentido do swordplay: companheirismo, amizade, respeito,
honra e honestidade. Muitas vezes eu não precisava advertir o jogador quando
ele fazia alguma coisa errada. Ele mesmo se desculpava com o colega e assumia a
punição combinada. Os próprios jogadores se policiavam, com muito respeito e
honestidade. Uma coisa linda de se ver e que eu vou sentir falta quando for
jogar com pessoas mais “experientes”. Eu fiquei verdadeiramente impressionado
com o caráter dos meninos e meninas que deram seu suor e fôlego nos jogos de
hoje.
E sabe que outro saldo positivo eu tive? Somo s a única modalidade (fora o xadrez) que não teve incidentes relativos á briga dos alunos uns com os outros. Não teve briga, incitação e nem mesmo xingamentos. Bem difernte da queimada feminina e do futsal masculino que exigiram intervenção da direção da escola.
No final do dia tivemos uma rápida confraternização. Amanha teremos
o encerramento dos jogos e vou para a festa com a sensação de dever cumprido. Para
o ano que vem teremos reformulações. Pegar o que deu certo e manter e o que deu
errado consertar e evoluir. Mas vou dar uma dica: no fim do primeiro dia o
diretor da escola perguntou se os alunos iam jogar com uniformes medievais
(batas, tabardos e cia!). Respondi que
era um projeto para o ano que vem. Vamos ver no que dá.
domingo, 16 de julho de 2017
Meu grupo virou pó... e agora?
“Ah cara, eu não sei
mais o que fazer. Meu grupo de swordplay virou pó. Por que isso acontece? O que
fazer quando isso acontece? Na semana passada reunimos menos de dez pessoas
para treinar (...) no nosso auge chegamos a ter 40 pessoas...”
Esse fragmento faz parte de uma conversa que eu tive com um
colega no chat do facebook. Ele está chateado – e com razão – afinal o grupo
dele está se desfazendo a olhos vistos. E pelo que eu conversei com ele nada
parece fazer efeito para que isso se reverta.
Você se sente familiar com essa situação? Já passou por
isso? E o que se pode fazer numa situação como essa? Procurar um novo grupo?
Buscar por paliativos (tipo videogame/ academia/ esportes de contato)? Arrumar
uma namorada? Maratonar todas as temporadas de TBBT?
Ponderei bastante sobre essas questões – e até assisti dois
episódios de TBBT – e a única reposta coerente que consegui encontrar foi: “sei
lá”.
Uma coisa que eu percebi ao longo da minha vida, e de todos
os hobbies que eu já tive, é que grupos [de
qualquer coisa] costumam possuir uma espécie de “prazo de validade”. Eu
estimo alguma coisa entre dois e cinco anos. E foi. Alguém se muda, casa, briga,
começa a faculdade, termina o colégio, começa a namorar, começa a trabalhar,
tem filhos, ou qualquer outra mudança drástica que vem com o passar dos anos.
Algumas vezes não precisa nenhuma mudança drástica. A pessoa continua a mesma:
não casou, não tem filhos, não trabalha, não faz porra nenhuma... Basta que ela
esteja de saco cheio para treinar. Já é suficiente para parar de jogar e dar
uma rasteira na motivação do resto dos jogadores.
O pior é que, na verdade, muitas vezes nem dá para saber o
motivo que leva uma pessoa a deixar de frequentar os treinos. No meu grupo
mesmo tinha um casal que simplesmente resolveram não treinar mais, sem dar
nenhum feedback a respeito.
“Ah Betão, mas quem quer de verdade dá um jeito de continuar
treinando. Eu tô casada, filha pequena no colo e mudei para a puta que pariu de
longe e continuo frequentando os treinos sem problemas” afirma aquela menina
simpática com bata branca e vermelha, segurando uma adorável e imparável bebezinha
no colo.
Sim, eu sei e concordo com você. Quem quer vai e faz. O
ponto é que swordplay não é o hobbie mais atrativo do mundo. Aliás, quanto mais
velho você fica, mais complicado é manter um grupo regular. As pessoas mudam,
envelhecem e mudam de interesse. Nada mais natural.
E finalmente o que fazer? Tem muita coisa que você pode
fazer a respeito, mas antes de qualquer coisa veja se vale a pena manter suas
energias no seu grupo atual. Vai ver ele já deu o que tinha que dar. Ficar
insistindo é meio que incentivar um cavalo morto a continuar puxando uma carroça.
Quem sabe seja a hora de se reinventar. Você pode procurar
outros grupos e se filiar a eles. Quem sabe mudar o local de treinos para ver
se atrai novos jogadores? Quem sabe?
Se quiser se aprofundar sobre o assunto dá um pulo neste
outro artigo que escrevi:
http://swordplaydobetao.blogspot.com.br/2016/03/a-faculdade-e-outras-doideiras-da-vida.html
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